[CONTINUAÇÃO] FIM DO CAPÍTULO 3
– Alo?! – É... Oi. – Alô? Quer falar com quem? – É... Eu gostaria de saber se é da casa da família da Sara. – Aqui quem fala é a Sara. Quem fala? – Não posso acreditar que encontrei minha amiguinha. – Quem fala, por favor? – Aqui é a Camila. Você lembra! Mila, da medicina... – Claro que lembro. Seria impossível esquecer. Mas não reconheci a voz. Está diferente. Mas não consigo acreditar que to falando com você. Depois de tanto tempo. Senti muito a sua falta. Você sabe. Sabe o quanto isso é verdade. – Claro que sei! Como é bom tem ouvir! – Mila, então me fala de você. Conseguiu se formar? Casou? Trabalhando...? Estou curiosa! Sara não sabia o que falar e pensar. Fora realmente surpreendida pelo telefonema que recebera, ficando nervosa. Camila demorou em responder. Aquelas perguntas mexeram com suas lembranças e sentimentos. Alegrias e tristezas. Como se ela lembrasse de tudo desde o começo da faculdade em um flash. – Calma, Sara! Um pouco de cada vez. Consegui me formar, e pode me chamar de “doutora”. – disse dando uma bela gargalhada – No momento eu me dei férias. Eu trabalhei demais desde que me formei, trocando sempre de emprego. Raramente concordava com as normas das instituições e a forma de trabalho. Comecei a fazer especialização em psiquiatria, mas desisti ao perceber como essas pessoas tratam os pacientes. Reduzem seres humanos, iguais a eles, a nada. Me dedico, agora, a área social, o que não me faz conseguir um bom retorno financeiro rápido. E isso, como pode imaginar, irrita minha mãe. – E você mora com ela ainda? Não consigo acreditar. Vocês nunca se entenderam. E o casamento... Não saiu? – Ainda moro com ela. Se naquela época a convivência era difícil agora é impossível. Terminei com aquele namorado que você conheceu. Um dia, ele chegou me agredindo fisicamente e verbalmente, inexplicavelmente, e eu não me submeti a agüentar esse tipo de comportamento. Ele me procurou por algumas vezes, mas nunca o atendi. Alguns meses passaram, e eu comecei a namorar Tiago, que eu já conhecia, mas nunca havia imaginado nada além de amizade. Estamos juntos há dois anos e sete meses. Eu posso afirmar que, pela primeira vez, confio inteiramente em um namorado. Agente pensa de forma parecida, ele, durante todo esse tempo, nunca me magoou nem nunca me deu motivos para desconfiar. Ele me faz sorrir, está do meu lado, me ajuda sempre. Mas eu sempre planejo a minha vida olhando pra mim e pros meus projetos, sem transformar ele em barreira. E você pode não acreditar, mas Tiago se adapta às coisas que faço e às decisões e mudanças. – Nossa! Parabéns. Sempre quis te ver tão segura como está agora. Queria conhecê-lo. – Você vai conhecer. Pode ter certeza! Mas me fala da sua vida. O que aconteceu depois que você saiu da faculdade? – Em resumo: eu comecei a estudar letras – português, e ontem foi meu último dia de aula. Só falta eu me formar. Envolvi-me por alguns meses com um homem casado sem saber, mas conseguir sair dessa armadilha. Tento conseguir emprego há um ano e só o que eu consigo são aulas de reforço particulares. Agora, no fim do ano, não vou conseguir muita coisa, a não ser concursos públicos. Já me inscrevi em seis. Pensei em você hoje pela manhã, enquanto caminhava, pois aconteceu algo muito estranho na noite de ontem. Precisamos conversar. – Eu senti isso. Lembra da ligação forte que temos? Talvez seja isso. Sei que precisa de alguém, que pode ser eu. – Será que podemos nos ver depois de amanhã? Você disse que está de férias. – Claro que podemos? Aonde? – Se você quiser vir à casa dos meus pais sabe como chegar aqui. Quando estiver na cidade, me telefone que te busco na rodoviária. E se quiser traga seu namorado. – Convite aceito. Não sei se ele vai querer ir. Mas eu vou com certeza! – Sabe, Mila, que adoro essa sua mística, esse seu espiritualismo. Acho incrível! Queria ter essa sua sensibilidade. Passei por tantas crises, que você nem pode imaginar. Senti sua falta. – disse Sara com voz chorosa. – Mas agora superei muito. Superei até a mim mesma. Minha concentração daqui pra frente será pra descobrir alguns mistérios da mente humana. – Mas você formou-se na área de Língua Portuguesa, não psicologia. – Aguarde minha amiga. Tenho planos pra um grande projeto. Você vai saber no momento certo. Quando ainda terminava de falar, Sara ouviu um ruído muito estridente, como de vidro quebrando em vários pedaços. Gritou pela sua amiga, que não a respondeu. Preocupada e sem saber o que fazer, desligou o telefone, pondo-se de joelhos aonde estava, e passou vários minutos fazendo orações para que, independente do que tenha acontecido, sua amiga se mantivesse ilesa.
[continua!]

Escrito por Ψ Ŧéfi às 16h50
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INÍCIO DO CAPÍTULO 3
– Camila! Camila! Acorda! Já ta tarde. – Mãe, o que você quer? Deixe-me dormir. – Você fica até tarde com seu namorado e não consegue acordar pra fazer um favo pra mim, que sou sua mãe. E olha só como você ta me tratando... – Eu te trato como você me trata. E você sabe que eu quase não vejo Tiago, que eu tenho saudades dele. Aposto que quando você era nova e namorava, aproveitava todos os momentos em que se viam. Eu não posso? E quando você me pede favor envolve dinheiro, mas saiba que eu tenho um pouco na poupança e que é pra eu investir na minha profissão. – Profissão essa que não te rende muito dinheiro, diga-se de passagem. Mas não quero nada seu. Quero que você tire um extrato pra eu ver se já descontaram os cheques. – E eu tenho que ir lá pra você. Por que você mesma não vai? Eu cansei de viver a sua vida! Quero começar a viver a minha. – Deus me livre, Camila. Se o dia começa assim, imagine te agüentar durante o restante dele. Não suporto essa sua má-criação. – Você não vai precisar me aturar o dia todo não. Quanto a isso pode ficar tranqüila. Vou sair hoje. Eu to de férias, e você me acorda falando mal do meu namorado e me chamando de preguiçosa e quer que eu te trate bem. Se me chama de mal-criada, lembre-se que quem me criou foi você mesma. – Você ta de férias, mas não ta morta. O ano todo eu poupo você de qualquer aborrecimento pra você estudar, trabalhar, ou sei lá mais o que você faz por aí, e você não me trata nem ao menos com respeito. Mal-agradecida! Vai fazer o que eu pedi ou vou ter que repetir? – Mas que horas são agora? Mãe, o banco deve estar fechado ainda! – Eu sei, e é por isso que estou te acordando agora. Pra você chegar lá e entrar na fila, porque preciso disso com urgência, e começo de mês no banco você sabe bem como é. Não entendo como uma médica recém-formada não ganha nem o suficiente pra comer. E ainda fica aí deitada, dormindo até tarde, conformada. – Não acredito no que to ouvindo! Passei dois anos fazendo plantão atrás de plantão, sem comer direito, sem me divertir, sem descansar, procurando um trabalho que me satisfizesse, e você acha pouco? Não dá pra conversar com você. Não como gente civilizada. – Falo mesmo, Camila. Você é minha filha. Queria ver você subindo na vida, ganhando dinheiro. Mas você não tem ambição. Sem ouvir a mãe concluir o que falava, Camila levantou-se da cama e saiu do quarto em direção ao banheiro, para escovar os dentes e lavar o rosto. Olhou no espelho, mas não reconheceu a figura ali refletida. Estava difícil de acreditar discutira com a mãe mais uma vez. Ficou parada em pé, com a escova de dentes na mão, pensativa. A situação estava insuportável. Quando teve certeza que seu quarto estava vazio, voltou para lá e trancou a porta. Olhando seu quadro de fotos, na parede de frente para sua cama, sentiu um nó na garganta ao ver uma foto do início da faculdade; ela entre as amigas Flavinha e Sara. Pensou em como a vida traçou caminhos diferentes para elas. Resolveu ligar para Sara, a quem sempre teve muito carinho e admiração e com quem não conversava há muito tempo. Encontrou em uma antiga agenda, um número de celular, que estava indisponível, e o número da casa dos pais. Foi discando os números, mas sem muita esperança de conseguir falar com a amiga depois de tantos anos. Após algumas tentativas, alguém atendera ao telefone.
Escrito por Ψ Ŧéfi às 16h40
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CAPÍTULO 2

– Sabia que estaria aqui. Vem pra cá quando quer ‘fumar um’. Mas ultimamente encontro-te aqui em todos os dias. Caio, você sabe que sou teu amigo. Lembra daquele acidente de carro que sofri de madrugada? Lembra pra quem que eu liguei né. Foi pra ti mesmo. E quando tu acordaste e percebeste a mãe... Acho que lembras e nem preciso repetir. Quem foi a primeira pessoa pra quem ligaste? É... Ligaste para mim. E o que isso tudo significa?! Que na nossa amizade há relação de confiança mútua. E vejo que precisas me ouvir pela primeira vez. Nunca conversamos sobre isso, mas penso que está cada vez mais sério. Você não consegue mais controlar. – Você sabe que eu não suporto quando você começa a falar com esse jeito gaúcho perto de mim; empregando de forma errada a segunda pessoa. Sabe que eu defendo a liberdade de linguagem?! Caio já sentia seu corpo leve. Como se não houvesse matéria, mas apenas sua alma deitada ali naquela areia. Gostava da praia para relaxar. Era seu lugar favorito nos momentos alegres ou não. Gostava de lá pra ficar sozinho, para namorar ou encontrar os amigos. Fumava maconha eventualmente, e já havia muitas vezes levado broncas, chamado pra conversar, e até aconselhado por um pastor, mas aquilo era apenas lazer. Não imaginaria nunca, porém, que logo Lúcio, seu amigo de momentos de sobriedade, cerveja, festa, violão e maconha, estaria ali, naquele lugar deserto, falando com ele sobre esse assunto. – Brother, você não estás bem. Não to falando da ‘onda’ não. Falo de você. A pessoa Caio. Você tenta não demonstrar, mas te conheço bastante para saber o que sente ou não. Você precisa de ajuda. Sei disso. Mas quem tem que começar o processo é você. – Mas você sempre fumou comigo. Por que isso agora, heim? – Já disse que não falo disso. Quando eu digo que precisar de ajuda, refiro-me aos seus sentimentos, se é que você ainda os tem. Mas não dá pra conversar contigo nesse estado. To indo pra casa. Tenho que pegar ônibus. Não sou como tu que tens casa aqui perto. Se quiser conversar quando tiver melhor me liga. Falou isso se levantando e batendo com as mãos no calção para fazer cair a areia. Caio não conseguiu falar nada. Sentia-se como se sua mente estivesse aberta e que as pessoas pudessem olhar e ler o que pensava e fazia. Temeu por um momento, mas em seguida foi invadido por uma memória repentina. Era tão real que pensava estar acontecendo mesmo. Lembrou-se da ultima garota legal que conhecera, ali, naquela mesma praia. Possuía um lindo sorriso com ar inocente e movia-se de maneira delicada e sutil. Sentia que os olhos escuros daquela garota atravessavam seu ser, como se ela pudesse ver e interpretar tudo à sua volta. Seu charme sensual despertava olhares discretos e indiscretos dos homens atentos por onde passava. Sentia que ela o encarava de modo diferente, como se estivesse interessada por ele. Mas pensou ser pretensão de sua parte pensar assim de uma garota tão inocente. Desistiu imediatamente de tentar qualquer contato, mas imaginava e sonhava com o romantismo Shakespeariano de uma garota como essa. Ouvia ao longe vozes e ruídos como de ‘rastéis’ arrastando folhas secas. –... Está muito bem vestido para ser um mendigo qualquer. – Acho que temos que falar à polícia. Pode ser um ladrão. Abria os olhos devagar, piscando várias vezes. O sol já estava forte e seus olhos não resistiam à claridade. Haviam duas velhas de pé ao seu lado e uns varredores debaixo da castanheira. – Eu disse que era pra continuarmos caminhando. – Disse uma das duas senhoras. – Rapaz, precisa de alguma ajuda? De onde você é? – Perguntou a outra senhora. – Eu sou daqui. Eu sou do mundo. Sou de Deus. Pertenço a todos os lugares e a lugar nenhum. Meu caminho é o caminho é aquele que meu coração manda seguir. As velhas assustadas foram-se retirando ainda resmungando. Caio foi-se levantando ainda sentindo um sono muito forte. No caminho de casa, pensou no que Lúcio falava. Talvez seu amigo estivesse certo. Chegando já no portão, sentiu cheiro de café fresco. Sua mãe provavelmente saíra para trabalhar a poucos instantes. O relógio da cozinha marcava dez horas. Lavou alguns copos e talheres que estavam na pia, engoliu um pouco de café sem açúcar e tomou um banho gelado. Ao entrar em seu quarto, percebeu sua prima, Lívia, dormindo. Desligou o ventilador e abriu as cortinas e janelas, incomodando o sono da prima. Deitou ao lado dela abraçando-a e dando um beijo em seu rosto. – Caio, seu sem-graça! Deve ser madrugada ainda! – Também te amo, Livinha! Lívia olha bem para Caio, notando suas fortes olheiras. Dormira na cama dele, pois chegara tarde na casa da tia e, vendo que Caio não passaria a noite em casa, resolver dormir ali mesmo. – Primo, primo... Essas suas mulheres te dão mesmo muito cansaço. Foram quantas ontem, nego? – riu de maneira maliciosa deixando o garoto envergonhado. Puxando o lençol com que sua prima estava enrolada, Caio da uns tapinhas na perna de Lívia, dizendo: – Não vai levantar? O sol está lindo lá fora e a praia ótima como sempre. Ou vai ficar aí perdendo o precioso tempo da sua vida? – Agora eu vou ficar deitada aqui, imóvel, e você vai fechar a cortina. Ah! Sua mãe falou que o almoço ta pronto; só precisa esquentar. E também que a carta da aposentadoria ta a caminho. Fique esperto porque precisa assinar pra receber. Fique em casa à tarde. Agora, será que Vossa Excelência poderia me deixar dormir? Penso que precisa fazer o mesmo! – Deu comida pro Crocodilo? – Ontem sei, porque você o deixou com fome. Mas hoje, como pode perceber, eu ainda nem levantei. – Ta. Pode crê! Caio foi ao quintal alimentar e brincar com Crocodilo, seu cachorro da raça basset e pelos brilhosos de cor caramelo; deitou-se em seguida no sofá da sala, onde dormiu em poucos minutos.
Escrito por Ψ Ŧéfi às 15h39
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Entra no quarto, no se próprio quarto, como se temesse o olhar de alguém ainda acordado. Apesar de morar sozinha devido aos estudos, estava sempre na casa dos seus pais. Larga as sandálias que segurava com a mão esquerda como se seus dedos não suportassem o peso delas, liga o som, tocava uma música do Foo Fighters, acende um cigarro com certa dificuldade, pois seus dedos escorregam no isqueiro; abre a janela para expirar a fumaça, afinal, não sabem que ela fuma há quatro anos. – Não me conhecem! Não sabem o que eu faço; o que quero fazer; como penso e sinto. Nunca quiseram saber. Lembra, de repente, do início da sua adolescência ao tocar uma música do Box Car Racer no rádio, uma das bandas que ouvia muito nesse período. Deixa cair uma lágrima ao recordar dos seus amigos e paixões, de quando os tinha e vivia em função deles. Enxuga rapidamente, como querendo esconder de si mesma que preferia ter parado naquele tempo a ter continuado envelhecendo. Traga mais uma vez o seu cigarro importado e deixa-o no cinzeiro, e viu seu corpo cair sobre a cama, sem conseguir comandá-lo. – Merda! Que nojo que eu tenho de mim! Passo meus dias sorrindo, que nem uma palhaça, tentando ser amiga de todo mundo, sendo simpática... Pra que? O que é que eu ganho com isso? Continuo sozinha. Ninguém me liga. Continuo na fossa. Shit! Parecia que o mundo iria acabar. É o que, na verdade, ela queria. Que tudo acabasse, ou que chegasse um dia qualquer e ela não mais acordasse. Hesitava, porém, que suas marcas forem apagadas e que, ao fim de uma geração, seu nome morresse como seu corpo. Queria, na verdade, que seu nome fosse visto por crianças na escola nos livros de história geral ou literatura brasileira, sendo odiada por muitos, mas admirada por alguns poucos. Deitada ali, em sua pequena cama de solteiro, imóvel, lamentava-se pelo que devia e deixava de viver, pelas barreiras impostas e as que ela mesma colocava para realizar pequenos desejos e sonhos, resmungando ainda, em voz alta, como querendo que alguém a ouvisse e a oferecesse colo. Na verdade era tudo o que queria: colo. – Aff... Não sei se tenho amigos. Amores?! Pff... Eu preferiria estar chorando aqui de ‘dor de cotovelo’ do que de solidão. Tipo um amor não correspondido, aquela coisa ‘Shakespeariana’ de meu amor, meu tudo. Mas não! Tudo gira contra mim, inclusive eu mesma. Se existe essa tal de sorte que tantos falam, nunca conheci! DEUS! Agora nem lembrava mais dos pais e do irmão que já estavam provavelmente dormindo em seus quartos. Como mágica, porém, levantou-se sem saber de onde vinha tão grande força. – Deus existe! Deus... Existe! Talvez ele goste de mim. Preciso de Você, Deus! Não sei como mudar. Como mudar isso que vivo? Aliás... Mudar o que não vivo. Preciso de Você! Não sei o que fazer. Não... Não sei! Foi até a gaveta, pegou um bloco de folhas pretas e sua lapiseira. Pensou em uns versos, depois de vários meses sem escrever nada. Debruçou na janela, de onde ouvia barulho de chuvisco caindo sobre o telhado da garagem e terminou de fumar o cigarro aceso, apertando-o contra o cinzeiro e virou-se, segurando ainda o bloco de folhas e apertando a parte de cima da lapiseira para aparecer o grafite. – AHHH!!! Um grito baixo e rouco saiu falhando; soltou o que segurava e tapou a boca com as mãos. – Bor... bor... borbol... boleta... Não poderia acreditar no que estava vedo ali, no seu quarto fechado, em cima do móvel, à noite, quebrando o vazio da solidão, uma linda borboleta cor de laranja que havia aparecido misteriosamente de algum lugar. Sentou-se no chão com as pernas cruzadas por vários minutos admirando a delicadeza e simplicidade da beleza extravagante daquele ser. Lembrou-se o que ia fazer. Pegou, então, os objetos que deixara cair, mas havia muita coisa em mente. Não lembrava mais dos versos que pensara momentos antes. Estava difícil concentrar-se em outra coisa, a não ser na borboleta à sua frente. Sentou-se na cama e começou a escrever:
“Erma a árida noite, Árvores desfolhadas. Tua cabeça em meu ombro Pousa aflita e pesada.”
– PORRA! Muito artificial, além de versos brancos. O que é que eu to fazendo?
“Se eu de ti me esquecer, nem mais um riso Possam meus tristes lábios desprender; Para sempre abandona-me a esperança; Se eu de ti me esquecer.”
– Cadê? Cadê o dom que todos dizem que eu tenho? O dom abençoado de escrever. Ainda ta muito artificial! Não há rimas, nem métrica. Mas não há o principal: sentimento. Preciso mesmo é de inspiração. De um amor. Se até Shakespeare pra escrever seus teatros precisava, eu, então, pobre mortal, amadora. Talvez precise de mais do que inspiração. Preciso desse dom que dizem que eu tenho, mas se realmente tivesse estava com essas folhas preenchidas.
“Como pode, como pode, se de tudo Guardas a glória de ter sido A coisa mais bela. Lindo e mudo; Vive na memória depois de fugido”
– A borboleta! Feliz por gostar das frases que escrevera, sente-se no dever de agradecer à sua musa inspiradora, a misteriosa borboleta de beleza infinita parada em sua cômoda. Pega outro cigarro e acende, dessa vez facilmente. – Sabe que você até não é nada mal. Gostei. Na real, muito obrigada. Mas... O que você... Ao virar-se na direção da borboleta, percebe que já não está mais ali. Deixa cair o cigarro aceso sobre o lençol da cama segurando firme o isqueiro em sua mão direita e olhando à sua volta na esperança de que ainda estivesse por perto. Completa a pergunta que estava fazendo, sabendo que não encontraria facilmente a resposta: – O que é que você queria aqui? O que você queria comigo? Dizer-me alguma coisa, talvez. Preciso de você! Preciso que fale. Mas o medo interiorizou-se em si. Tremia sem saber o que pensar. Apagou o cigarro rapidamente e deitou-se segurando o travesseiro. Não tinha idéia do que acontecera ali naquele quarto, mas sabia que poderia ser algo sério.
Escrito por Ψ Ŧéfi às 09h27
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ALQUIMIA
do poeta humano um poema jogado num pedaço de pano, num papel rasgado, no muro...
a menina púrpura lê e se fascina:
pronto! Poesia...
(Marisa Francisco)
Tirado do site: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=87940
Escrito por Ψ Ŧéfi às 20h41
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